O avanço do crédito estruturado no Brasil, especialmente por meio de FIDCs e securitizadoras, ampliou o acesso a capital e diversificou as fontes de financiamento para empresas de diferentes portes e setores. Ao mesmo tempo, esse crescimento trouxe à tona um desafio recorrente: a qualidade e a consistência das informações que sustentam a análise de risco.
Assimetria informacional ainda persiste
Na prática, ainda é comum que operações avancem para comitês de crédito com lacunas documentais relevantes. Balanços incompletos, ausência de dados consolidados de endividamento, limitações no acesso a informações via SCR ou Open Finance e pouca visibilidade sobre a composição da carteira de recebíveis seguem sendo situações frequentes.
O ponto central, no entanto, não está apenas na ausência de documentos, mas no que ela representa: uma assimetria informacional que compromete a correta mensuração do risco.
Em crédito estruturado, a análise não se restringe à empresa cedente. Ela depende da qualidade das informações disponíveis sobre sua operação, seus clientes, sua concentração e sua real exposição financeira. Sem esse conjunto, a precificação deixa de refletir adequadamente o risco assumido, e a estrutura da operação passa a se apoiar mais em expectativa do que em evidência.
Quando o risco aparece, geralmente já era conhecido
Não são raros os casos conhecidos no mercado em que o endividamento apresentado por uma empresa indicava relacionamento com 10 ou 12 fundos. Quando o problema veio à tona, o número real ultrapassava de 90 instituições expostas ao mesmo risco.
Esse tipo de distorção dificilmente surge de forma abrupta. Em geral, ela é construída ao longo do tempo, a partir de informações incompletas, compartilhamentos seletivos e ausência de padronização nos dados fornecidos.
Mais dados não substituem transparência
Hoje, o mercado dispõe de um conjunto cada vez mais robusto de ferramentas para mitigar essas assimetrias. SCR, acesso ao Open Finance, bureaus de crédito, big data e plataformas colaborativas como o BeeCred ampliaram significativamente a capacidade de leitura do risco e de troca de informações entre participantes.
Ainda assim, o acesso a dados não elimina um ponto essencial: a necessidade de coerência e transparência na documentação fornecida pelo próprio cliente.
Ferramentas ampliam a visão, mas não substituem o compromisso com a consistência da informação.
Governança e disciplina como diferenciais
Outro aspecto relevante é que, na maioria dos casos, a resistência ao fornecimento de dados não está associada a custo ou complexidade operacional, mas a decisões estratégicas do próprio tomador. Isso desloca o tema da esfera técnica para o campo da governança e do comportamento.
Nesse contexto, a formalização das operações – muitas vezes tratada de forma equivocada como burocracia -, assume papel central. Mais do que um rito processual, ela é o mecanismo que garante consistência, rastreabilidade e disciplina na concessão de crédito.
O desafio, portanto, não é apenas técnico, mas também cultural. Em ambientes de maior competição e pressão por originação, há o risco de flexibilização de critérios em nome da agilidade ou da manutenção de relacionamento comercial. No entanto, a experiência do próprio mercado demonstra que decisões baseadas em informações incompletas tendem a produzir distorções que se materializam ao longo do tempo.
Porque, em última instância, o risco não desaparece na ausência de informação.
Ele apenas deixa de ser visível até o momento em que se manifesta.
Rodrigo Muller
Gestão de Crédito, Risco e Governança


