A maioria das casas de fomento e dos FIDCs tem uma política de crédito definida, mas um ponto que pode dificultar novos negócios e até prejudicar a governança é a falta de rever essas definições com alguma periodicidade. Os parâmetros sobre como conceder crédito foram desenhados em um momento em que o patrimônio era menor, a carteira tinha outro tamanho e a equipe tinha outra maturidade. Desde então a casa cresceu, captou, ampliou a originação e em muitos casos passou a operar produtos que nem existiam quando o documento foi escrito.
O que acontece na prática é que a política vai se descolando da operação, e isso aparece de duas formas. Na primeira, o limite antigo passa a barrar negócios que a casa hoje tem plena capacidade de fazer, e o time aprende a tratar a política como um obstáculo a ser contornado. Na segunda, o limite já foi rompido tantas vezes que deixou de ser consultado, e a decisão passa a depender do bom senso de quem está olhando a operação naquele momento. As duas situações chegam ao mesmo lugar, que é uma casa operando sem limite efetivo mesmo tendo um limite escrito.
O limite começa na estrutura de capital
Quando uma casa precisa definir até quanto pode se expor a um nome, a tendência natural é começar pela operação. O gestor conhece o cedente, entende o setor, avalia a garantia e, a partir dessa leitura, chega a um valor que parece razoável. O raciocínio é compreensível, porque é assim que se analisa risco de crédito individual. O problema é que ele responde a uma pergunta diferente da que o limite de exposição precisa responder.
O limite não trata da qualidade da operação. Ele trata de quanto essa casa consegue perder em um único nome sem interromper a atividade, sem descumprir compromisso com cotista e sem depender de aporte para continuar funcionando. Essa conta sai do capital e da estrutura de funding, não da avaliação do cedente que está na mesa naquele dia. Uma operação excelente e uma operação mediana consomem o mesmo limite, justamente porque o limite existe para o cenário em que a avaliação estava errada.
Disso vem uma decisão prática sobre como o limite é expresso. Limite em valor absoluto envelhece rápido. Um teto de dois milhões pode ser conservador em um momento e desproporcional meses anos depois, e como quase ninguém revisa o documento nesse intervalo, ele acaba sendo aplicado fora do contexto que dava sentido. Expressar o limite como percentual do patrimônio ou da carteira resolve parte do problema, porque o parâmetro se ajusta junto com o crescimento da casa.
O cuidado é que o percentual também afrouxa sozinho. Se o patrimônio dobra, o limite por cedente dobra no mesmo movimento, ainda que nada tenha mudado na capacidade da casa de acompanhar aquele cedente de perto. Por isso as políticas mais maduras trabalham com as duas referências ao mesmo tempo. Um percentual que acompanha o tamanho da casa e um teto absoluto por nome, que só é elevado por decisão e não automaticamente por cálculo.
As camadas de limite e o que cada uma protege
Cada camada de limite cobre um risco. Quando a política tem apenas uma delas, normalmente a de cedente, os demais riscos seguem descobertos e vão se acumulando, um erro de governança que afeta o crescimento sustentável.
- Cedente. O limite por cedente cobre o risco individual, que é o mais evidente, e cobre também um risco menos discutido, que é a dependência comercial. Quando um cedente responde por uma fatia grande da originação, a casa perde liberdade para recusar uma operação ruim dele, porque recusar significa colocar em risco o volume do mês. O limite por cedente protege a carteira de uma perda concentrada e protege a casa de negociar em posição desfavorável.
- Grupo econômico. Aqui está uma das falhas mais comuns em casas menores. O limite por cedente é respeitado individualmente, mas três empresas do mesmo dono ocupam três limites separados quando na prática representam um único risco. Se o grupo entra em dificuldade, as três param juntas. Para que o limite funcione, a política precisa dizer com clareza o que a casa considera grupo, e os critérios usuais são sócios em comum, avalista em comum, mesma sede, faturamento entre as empresas, contabilidade compartilhada e o mesmo sacado principal. Igualmente importante é onde a checagem acontece. Feita no cadastro, antes da análise, ela orienta a decisão. Feita depois da concessão, quando alguém repara na semelhança entre os nomes, serve apenas para medir um problema que já existe.
- Sacado. Essa é a camada que exige mais mudança de leitura para quem vem do fomento mercantil. Na antecipação de recebíveis o sacado é a proteção da operação, porque é ele quem liquida. Quando a casa começa a olhar a carteira como um conjunto, o mesmo sacado deixa de ser só proteção e passa a ser ponto de correlação. Dez cedentes que vendem para o mesmo comprador não formam dez riscos independentes, porque um atraso desse comprador atinge as dez posições na mesma semana. Casa que controla exposição por cedente e não controla por sacado costuma ter uma concentração real bem maior do que a que aparece nos relatórios.
- Setor. O limite setorial existe porque certos eventos não atingem um nome, atingem uma cadeia inteira. Uma safra ruim, um salto no preço de um insumo, uma mudança de regra que reduz investimento em um segmento. Cada operação foi aprovada isoladamente e com critério, e mesmo assim a carteira responde como um bloco quando o choque chega. Sem esse limite, a casa só descobre o tamanho da correlação no trimestre em que ela se realiza.
- Região. Segue a mesma lógica do setor, com fatores diferentes. Clima, dinâmica econômica local e dependência de um empregador ou de uma cadeia dominante. Em carteiras originadas por indicação, a concentração regional aparece sem que ninguém tenha decidido por ela, simplesmente porque a rede de relacionamento é local.
- Produto e tipo de garantia. Essa camada é menos intuitiva, mas o efeito se parece com concentração de nome. Se a maior parte da carteira depende do mesmo tipo de garantia, a casa depende do mesmo mecanismo de recuperação em todos os casos. Quando esse mecanismo se mostra mais lento ou mais frágil do que se esperava, o problema aparece na carteira inteira ao mesmo tempo, e não em uma operação específica.
- Prazo. É o limite menos escrito nas casas menores e o que conversa diretamente com o funding. Conforme a casa amplia a atuação em crédito, o prazo médio da carteira vai aumentando de forma gradual, cada operação isolada parece apenas um pouco mais longa que a anterior. Se a captação não acompanha esse alongamento, se forma um descasamento que não aparece em nenhum indicador de inadimplência, já que a carteira pode estar performando bem e o problema estar no passivo.
O limite precisa custar algo em algum momento
Um limite que nunca barrou uma operação boa provavelmente não está funcionando como limite. Em algum momento vai aparecer um cedente que a casa conhece, confia e não consegue acomodar, e é esse momento que mostra se existe política de crédito viva que acompanha o crescimento e amadurecimento dos negócios, ou apenas documento formalizado.
Como a situação é previsível, vale definir antes o que a casa faz quando ela chegar. Recusar, reduzir ticket ou prazo até caber, ou aprovar como exceção com prazo definido e plano de redução da exposição. A diferença entre exceção e limite novo está exatamente aí. Exceção tem data e caminho de volta. Sem esses dois elementos, o que aconteceu foi uma mudança de política feita por uma pessoa, sem discussão e sem registro.
Vale também acompanhar a frequência das exceções. Se a maior parte das aprovações passa por elas, o problema deixou de ser disciplina e passou a ser calibragem. O limite está no lugar errado, e o caminho é refazer a política de crédito.
Revisar quando o capital muda
Revisão anual por calendário é melhor que nenhuma revisão, mas existe um gatilho mais útil, que é o momento em que o capital muda. Aumento de capital, entrada de novo cotista, nova linha de funding. São esses momentos que pedem a reabertura da política, porque a base de cálculo mudou.
O que precisa ser avaliado é se a casa consegue acompanhar uma exposição maior por nome, e isso depende de quantas pessoas olham a carteira, com que frequência olham e qual informação chega até elas. Capital maior amplia a perda que a casa absorve, mas não amplia, por si, a capacidade de monitoramento, que depende de time e de processo. Quando esses dois crescem em ritmos diferentes, o limite deve acompanhar o mais lento.
A política de limites define a composição da carteira antes de a operação chegar. Quando ela está desatualizada, essa composição continua sendo definida, só que pelo fluxo de originação e pelo relacionamento de quem traz o negócio. É assim que a carteira concentra sem que ninguém tenha controle. Definir limite é um tema de governança, e essa definição começa no capital, não na originação.

