Se a sua empresa de fomento ou o seu FIDC está vivendo um período de crescimento, este talvez seja o melhor momento para revisar a qualidade das decisões que estão sendo tomadas hoje.
Parece contraditório, mas boa parte dos problemas que aparecem em uma carteira não nasce durante uma crise. Eles começam justamente quando o mercado está aquecido, a originação cresce, a inadimplência permanece sob controle e aumenta a sensação de que é possível acelerar sem o mesmo nível de rigor.
É nesse cenário que surgem as pequenas concessões. Um limite ampliado porque o cliente sempre performou bem. Uma garantia aceita com menos questionamentos. Uma exceção feita para aproveitar uma boa oportunidade comercial. Um prazo um pouco maior porque a operação parece fazer sentido. Isoladamente, nenhuma dessas decisões costuma chamar atenção. O problema é quando elas deixam de ser exceções e passam a fazer parte da rotina.
Quem trabalha com crédito sabe que uma operação dificilmente revela seus problemas no momento da concessão. É o tempo que confirma se a decisão foi boa. Por isso, os períodos de crescimento exigem um tipo diferente de disciplina, aquela que impede que o entusiasmo substitua os critérios que construíram uma carteira saudável.
O crescimento muda a forma como as decisões são tomadas
Nenhuma política de crédito é flexibilizada de um dia para o outro. Depois de alguns meses originando boas operações, com clientes pagando em dia e uma carteira apresentando resultados consistentes, é natural surgir a percepção de que determinados critérios talvez estejam limitando o crescimento.
A equipe comercial passa a enxergar oportunidades que poderiam ser aprovadas. O gestor lembra que determinado cliente sempre honrou seus compromissos. Surge a impressão de que algumas exigências poderiam ser flexibilizadas porque “até hoje nunca deram problema”. É justamente aí que mora o risco.
As exceções começam a se acumular sem que ninguém perceba uma mudança efetiva na política de crédito. Aos poucos, a empresa passa a operar em um padrão diferente daquele que construiu sua carteira. O detalhe é que essa mudança dificilmente aparece enquanto o mercado continua favorável.
A inadimplência sempre conta uma história do passado
Existe um erro bastante comum na gestão de carteiras de acreditar que uma inadimplência baixa significa que as decisões atuais estão necessariamente corretas. Na prática, a inadimplência é um indicador atrasado. Ela reflete operações aprovadas meses atrás, em um contexto que pode ser muito diferente do atual. As operações que estão sendo concedidas hoje ainda não passaram pelo principal teste de qualidade: o tempo.
É por isso que períodos de crescimento exigem tanta atenção. Uma carteira pode apresentar excelentes indicadores enquanto novos riscos estão sendo incorporados. Quando o mercado muda ou algum setor começa a enfrentar dificuldades, esses riscos deixam de estar escondidos e passam a aparecer nos índices de atraso, renegociação e recuperação. O problema é que, quando isso acontece, as decisões que deram origem a essas operações já ficaram para trás.
Crescimento não pode significar redução dos critérios
Toda empresa de fomento e todo gestor de FIDC querem aumentar sua carteira. Afinal, crescer significa originar mais operações, conquistar novos clientes, ganhar escala e melhorar os resultados. O desafio é fazer esse crescimento acontecer sem alterar a qualidade dos ativos que estão sendo incorporados.
Isso significa resistir à tentação de aprovar uma operação apenas porque existe uma meta comercial a cumprir, porque o mercado está aquecido ou porque um concorrente provavelmente aceitaria aquele risco. Os critérios de crédito não existem para dificultar negócios, porém existem para dar consistência às decisões.
Cada exigência normalmente foi construída a partir de experiências acumuladas, operações que deram certo, erros que custaram caro e aprendizados que ajudaram a proteger a carteira ao longo do tempo. Quando esses critérios começam a ser flexibilizados sem uma revisão estruturada da política de crédito, a empresa deixa de decidir com base em método e passa a decidir conforme as circunstâncias. Essa mudança pode parecer pequena no presente, mas costuma produzir efeitos relevantes quando o mercado deixa de ser tão favorável.
Crescer também exige maturidade para dizer “não”
Existe uma percepção equivocada de que empresas mais experientes aprovam mais operações porque conhecem melhor o mercado. Na prática, acontece justamente o contrário. Quem já atravessou diferentes ciclos econômicos sabe que nem toda operação precisa entrar na carteira. Em muitos casos, preservar a qualidade dos ativos é uma decisão mais rentável do que aumentar rapidamente o volume de crédito concedido.
Isso não significa perder competitividade ou abrir mão do crescimento. Significa entender que uma carteira saudável não é construída apenas pelas operações aprovadas, mas também pelas operações que tiveram a disciplina de ficar de fora. Quando o mercado desacelera, todos ficam mais cautelosos. Os critérios naturalmente se tornam mais rígidos porque o aumento do risco é visível para todos. O verdadeiro teste da governança acontece quando o cenário é exatamente o oposto.
No fim, as maiores perdas raramente nascem de uma única decisão equivocada. Elas costumam ser consequência de pequenas concessões feitas ao longo do tempo, sempre justificadas pelo bom momento vivido pela carteira. Crescer continuará sendo um dos principais objetivos de qualquer empresa de fomento ou FIDC. Mas as organizações que conseguem atravessar diferentes ciclos econômicos são justamente aquelas que entendem que o entusiasmo de um mercado aquecido nunca pode substituir a disciplina que construiu sua carteira. Porque, no crédito, os melhores anos também podem esconder os riscos que só aparecerão quando o ciclo mudar.

