O problema não é aprovar uma nova tese. É o que acontece depois disso.
A gente gosta muito de falar sobre aprovação. A operação entra, liquida bem no primeiro ciclo, o cliente se mostra organizado, o fluxo funciona e, de repente, aquela exceção começa a ganhar simpatizantes dentro da estrutura.
É quase inevitável.
Sempre aparece alguém dizendo que “descobrimos uma nova mina de ouro”. Um outro já começa a imaginar escala. E existe ainda aquele momento clássico em que alguém pergunta quantas outras operações parecidas poderiam entrar na carteira. O crédito, nessa hora, normalmente respira fundo e pede mais tempo. Nem sempre consegue.
O curioso é que novas teses quase sempre entram bonitas na carteira. Bem documentadas, acompanhadas de perto, com todos atentos ao comportamento da operação. O problema começa quando ela deixa de ser novidade e vira rotina. Porque é aí que surgem as perguntas menos empolgantes e mais importantes.
A liquidez continua saudável quando o volume aumenta? O comportamento do cliente permanece o mesmo sem acompanhamento próximo? O prazo continua fazendo sentido? A concentração começou a subir sem ninguém perceber? O modelo aguenta stress ou só funciona em cenário otimista?
Existe uma diferença enorme entre uma operação liquidada e uma tese validada. E talvez esse seja um dos pontos mais negligenciados no dia a dia do crédito.
Uma política de crédito saudável não deveria funcionar como um museu, parada no tempo, incapaz de absorver mudanças do mercado. Mas também não pode ser atualizada pelo entusiasmo da primeira operação que “deu certo”. Governança não é rigidez absoluta. Só que flexibilidade sem método normalmente vira conveniência operacional com nome bonito.
Por isso toda exceção deveria entrar na carteira carregando uma obrigação silenciosa: a de ser estudada. Não basta a operação não dar problema. É preciso acompanhar comportamento, recorrência, impacto, aderência, capacidade de escala e encaixe dentro do apetite de risco da estrutura.
Talvez o principal sinal de alerta apareça justamente quando a exceção deixa de gerar desconforto. Primeiro ela entra como teste. Depois vira “caso específico”. Mais adiante, alguém menciona que “já fizemos antes”. Até que um dia ninguém mais percebe que aquela flexibilização inicial virou processo informal.
E sabemos muito bem que o custo da informalidade é exageradamente alto.
No fim, talvez a melhor forma de tratar uma exceção seja entendendo que ela não deve virar regra automaticamente. Ela tem que ser estudada. E todo estudo sério precisa chegar a uma conclusão: ou ganha critérios, monitoramento, governança e espaço oficial dentro da política de crédito, ou sai da carteira antes que a conveniência assuma o lugar da análise.
Rodrigo Muller
Gestão de Crédito, Risco e Governança

