Quem atua no fomento mercantil sabe que o perfil médio das empresas que batem à porta não é o mesmo que acessa crédito bancário com facilidade. São empresas que, em boa parte dos casos, carregam um passivo superior ao ativo. E entender essa realidade de verdade, com todas as suas implicações, é o que separa quem opera com consciência de quem está acumulando risco sem perceber.
Quando se diz que uma empresa tem o passivo maior que o ativo, o que se está dizendo é simples: se ela somar tudo o que deve e comparar com tudo o que possui, as dívidas ganham. O patrimônio líquido é negativo ou está tão comprimido que qualquer tropeço o elimina.
E tem um agravante que quem analisa crédito no dia a dia conhece bem. Boa parte do que aparece como “ativo” no balanço dessas empresas não vale o que está registrado. São imobilizados que ficaram sucateados, máquinas que não produzem mais, veículos depreciados, instalações que não geram retorno. No papel, são ativos. Na realidade, são números que inflam uma demonstração contábil sem representar capacidade real de pagamento. Esse é o perfil da empresa que o fomento mercantil atende todos os dias. E é com esse perfil que o setor construiu seu crescimento.
É fato que o mercado de fomento mercantil se expandiu de forma significativa ao longo dos últimos anos, mesmo operando com empresas nessa condição patrimonial. Isso aconteceu porque quem faz fomento desenvolveu uma competência que o mercado bancário tradicional não tem na mesma medida, que é a capacidade de monitorar ativos de perto, precificar o risco com agilidade e cobrar com eficiência.
As taxas praticadas refletem isso. Operações acima de 200% do CDI são o ponto de partida, e não raramente chegam a 300% ou mais. Com o CDI acumulado rodando acima de 14% ao ano e a Selic a 14,75%, estamos falando de custos efetivos que podem ultrapassar 35% ao ano para o tomador. É caro, sim, mas é o preço do risco de emprestar para quem tem o passivo maior que o ativo.
Durante muito tempo, o modelo funcionou. A lógica era direta: se o título cedido pela empresa desse problema, a recompra era condição para uma nova operação. Não recomprou, não opera mais. Era simples, eficaz e mantinha o tomador comprometido. A empresa precisava do fomento, e o fomento usava essa dependência como instrumento de disciplina.
O que mudou com a explosão dos FIDCs
Essa dinâmica foi quebrada com o crescimento do número de FIDCs, especialmente os multicedente-multissacado. O patrimônio líquido desses fundos saltou de R$ 43 bilhões em 2023 para quase R$ 70 bilhões em 2025. A indústria de FIDCs como um todo já se aproxima de R$ 1 trilhão em patrimônio. São números que mostram que hoje, a empresa tomadora tem muitas opções.
Se antes ela dependia de uma única factoring e precisava honrar a recompra para continuar operando, agora ela simplesmente migra para outro fundo, outra securitizadora, outra estrutura. O mecanismo de recompra, que era a principal ferramenta de controle do fomento, perdeu força porque a empresa não precisa mais voltar, ela tem outras portas para bater.
E o problema é que essa empresa que migra continua sendo a mesma empresa. Com o mesmo passivo maior que o ativo. Com os mesmos imobilizados sucateados compondo um patrimônio líquido que não existe de verdade. Só que agora, sem o vínculo de dependência que antes obrigava algum nível de compromisso.
O risco real aparece quando o crédito perde o lastro
Enquanto o fomento mercantil opera com securitização de recebíveis, existe uma âncora. O título tem origem comercial, pode ser verificado, o risco é mensurável. O problema se agrava quando o setor passa a conceder crédito sem lastro de recebível para esse mesmo perfil de empresa.
Porque a lógica do empresário que está descapitalizado é previsível. A prioridade número um dele é pagar os trabalhadores. Nenhum empresário, por pior que esteja a situação, quer ter problema trabalhista. A segunda prioridade é garantir matéria-prima para não parar a operação. O crédito sem lastro fica no final da fila. E quando a situação aperta, é esse crédito que não volta.
Não se trata de má-fé, necessariamente. Muitas dessas empresas são tocadas por gente séria, com boa administração e boa intenção. Mas quando o passivo é maior que o ativo, a margem de manobra simplesmente não existe. E quem concedeu crédito sem a proteção de um recebível performado fica na posição mais vulnerável da cadeia.
O alerta é para quem está no dia a dia
O Brasil fechou o início de 2026 com quase 9 milhões de empresas negativadas e mais de R$ 210 bilhões em dívidas corporativas em aberto. Os pedidos de recuperação judicial seguem em alta. E a concorrência entre FIDCs, factorings e securitizadoras só aumenta, pressionando margens e, em muitos casos, empurrando operadores a flexibilizar critérios para não perder volume.
Esse cenário exige que quem atua no fomento mercantil volte ao básico. O passivo maior que o ativo não é um detalhe contábil. É o indicador mais claro de que a empresa atendida não tem folga para absorver imprevistos. E quando se combina esse perfil com crédito sem lastro e um mercado onde o tomador pode simplesmente trocar de fornecedor de crédito sem resolver o que ficou para trás, o risco deixa de ser teórico. O setor cresceu porque aprendeu a operar com esse perfil. Mas operar com consciência desse risco é diferente de ignorá-lo para competir em volume. A história do fomento mercantil mostra que as operações mais saudáveis sempre foram aquelas em que o risco foi respeitado, e não aquelas em que ele foi subestimado para fechar mais negócio.

