Originar crédito é desenhar a operação, não apenas aprovar a empresa

Na antecipação de recebíveis, boa parte da operação já chega pronta. O título define o valor, o vencimento e quem vai pagar. A análise se concentra em verificar se o lastro existe, se o sacado é bom e se o preço compensa o risco. A estrutura vem junto com o papel.

No crédito, isso não acontece. O valor, o prazo, a forma de pagamento e os mecanismos de acompanhamento precisam ser decididos por quem concede o recurso. E cada uma dessas decisões interfere diretamente no risco. Uma empresa boa pode se tornar inadimplente em uma operação mal desenhada, assim como uma estrutura bem pensada pode tornar aceitável um risco que, de outra forma, seria alto demais.

É por isso que a originação no crédito vai além da aprovação do cliente. A pergunta deixa de ser apenas se vale a pena emprestar para essa empresa e passa a ser como essa operação precisa ser construída para ser paga.

O ponto de partida é a finalidade do recurso. Capital de giro para acompanhar um aumento de vendas, investimento em máquinas, troca de uma dívida cara por outra mais barata e cobertura de um desequilíbrio de caixa são necessidades muito diferentes. Cada uma pede um prazo, uma forma de pagamento e um nível de acompanhamento próprios. Quando a finalidade não está clara, ou quando ela muda ao longo da conversa, dificilmente alguma estrutura vai compensar esse problema.

Em seguida vem a fonte de pagamento. Todo crédito precisa ter uma resposta objetiva sobre de onde virá o dinheiro para quitar a dívida. Pode ser a geração de caixa da operação, a receita de um contrato específico ou a venda de um ativo. Quando essa resposta não existe, o crédito costuma ser pago com outro crédito. A operação passa a depender da renovação, e o credor se torna, sem perceber, o financiador permanente de uma necessidade que não se resolve.

O dimensionamento deveria partir dessas duas respostas, e não do valor solicitado. O limite adequado é aquele que a geração de caixa da empresa consegue pagar com folga, considerando todas as dívidas que ela já tem. Uma prática comum, e arriscada, é dimensionar a operação pelo valor da garantia. A garantia protege em caso de perda, mas não cria capacidade de pagamento. É também nesse momento que a exposição que o cliente já tem no fomento precisa ser somada, porque o risco é da mesma empresa.

Prazo e amortização exigem um cuidado que raramente é necessário na antecipação de recebíveis. Uma empresa com vendas concentradas em alguns meses do ano dificilmente vai honrar parcelas iguais todos os meses. Um investimento que leva tempo para gerar retorno precisa de carência. Um crédito de giro com prazo longo demais pode acabar financiando prejuízo em vez de operação. Quando o cronograma de pagamento não conversa com o ciclo de caixa do cliente, a inadimplência aparece pelo desenho da operação.

Existe ainda o prazo do lado de quem empresta. Um crédito de vinte e quatro meses concedido com recursos captados para prazos mais curtos cria um descasamento dentro da própria operação. No fomento, o giro rápido dos títulos sempre resolveu isso de forma natural. No crédito, essa conta precisa ser feita antes.

Outro ponto pouco explorado por Fidcs, factorings e securitizadoras é a informação contínua. Na antecipação, o fluxo dos títulos mostra o comportamento do cedente quase em tempo real. No crédito, depois do desembolso, o credor pode passar meses sem saber o que está acontecendo com a empresa. Por isso, a obrigação de envio periódico de balancetes, faturamento e posição de endividamento precisa estar prevista desde o início.

As cláusulas de proteção seguem a mesma lógica. Limites de endividamento, restrição à oferta de garantias para outros credores, obrigação de comunicar mudanças no controle da empresa e vencimento antecipado em caso de inadimplência com outras instituições são mecanismos comuns no mercado de crédito e ainda pouco usados por quem vem do fomento. Mas elas só funcionam se alguém acompanhar, uma cláusula que ninguém verifica não protege a operação.

O setor também tem uma vantagem que costuma ser pouco aproveitada. Poucos credores sabem controlar fluxo de recebíveis tão bem quanto quem vem do fomento. Vincular parte do pagamento do crédito aos recebíveis do cliente, por meio de cessão fiduciária, conta vinculada ou domicílio bancário, aproxima o risco do crédito daquele que o setor conhece bem. Isso não elimina a análise da empresa, mas cria uma fonte de pagamento que pode ser acompanhada. Por fim, as premissas que sustentaram a aprovação precisam ficar registradas. Qual era a finalidade, qual era a fonte de pagamento, qual capacidade de caixa foi considerada. Esse registro é o que permite perceber, meses depois, que alguma dessas premissas deixou de ser verdade, e agir antes do atraso. No fomento, o título define a operação. No crédito, a operação precisa ser construída.