A esteira de crédito não está devagar. Ela só não gosta de atalho.

Toda vez que alguém me diz que a esteira de crédito de uma FIDC ou securitizadora “está lenta demais”, eu faço uma pergunta simples: lenta comparada a quê? A não pagar o passivo dali a seis meses?

Porque é sempre essa a conta que ninguém faz na hora de reclamar da burocracia. O mercado adora chamar de “retrabalho” aquilo que, no fim, é a única coisa que separa uma carteira saudável de uma carteira que vira manchete.

Vamos ao raciocínio.


O caminho que ninguém quer encurtar

Cadastro recebe os documentos, faz a primeira leitura e devolve para o Comercial os pontos que precisam ser esclarecidos. Simples assim!

Crédito pega esse material – análise do time de cadastro, relatório de visita, documentação -, e responde a uma pergunta que parece óbvia, mas que muita gente prefere não fazer: esse cedente cabe no risco que a gente topa levar?

Formalização olha tudo de novo. E aqui já ouço o “mas isso não é redundante?”.

Não é!

Formalização não está checando se o Crédito fez a lição de casa. Está validando poderes, assinaturas, reconhecimentos, contratos,… enfim, a parte chata que, quando falha, não vira “detalhe operacional”, vira processo.

Mesa de Operações recebe o borderô e confere se o que está sendo apresentado é, de fato, o que foi aprovado. (Spoiler: nem sempre é.)

Gestão de Risco acompanha o que já foi comprado, monitora o comportamento do lastro e fica de olho se a operação ainda está dentro do combinado, porque risco aprovado uma vez não é risco aprovado para sempre.

Cobrança entra no vencimento, confirma liquidações, trata os vencidos e devolve inteligência para quem precisa entender o comportamento do cedente e dos sacados.

Se não liquidou, Controladoria calcula o estrago e o PDD. E, se precisar, o Jurídico executa – fazendo, na prática, a última checagem de algo que a Formalização já tinha analisado lá atrás.

Oito áreas. Nenhuma delas fazendo a mesma pergunta. Todas fazendo perguntas diferentes sobre o mesmo risco. Isso não é esteira burocrática. É esteira com memória.


Acumular função não é pecado. Acumular etapa crítica, sim.

Ninguém está dizendo que toda estrutura precisa de oito, dezesseis, trinta e duas pessoas para oito caixinhas. Em boa parte do mercado, uma mesma pessoa acumula duas ou três funções. E tudo bem! Isso é operação normal.

O problema começa quando quem monta a operação também é quem valida a operação. Aí não é mais acúmulo de função, é ausência de segunda opinião. E convenhamos: ninguém audita bem o próprio trabalho. Ninguém!


Segregação de função não é planilha de compliance. É seguro de vida do ativo.

Um mentorado comentou algo que resume melhor do que eu consegui em uma conversa: o grande risco de simplificar a esteira para ganhar velocidade comercial é abrir mão da segregação de funções.

Traduzindo do “credit-ês” para o português: quando Cadastro, Formalização e Mesa de Operações trabalham em camadas separadas, a checagem de lastro e de poderes deixa de ser burocracia e vira proteção direta do ativo. Ponto final.

E aqui vai a conta que todo diretor financeiro deveria fazer de cabeça: um erro pego pela Formalização antes do desembolso custa uma fração do que custa uma execução jurídica ou uma PDD que poderia ter sido evitada. Não é filosofia. É aritmética.


“Burocracia” é só o apelido que damos ao controle que não queremos pagar

Em um texto que publiquei recentemente no LinkedIn, uma gestora de carteiras trouxe uma frase que eu deveria ter usado no post original: o que parece burocracia, na maioria das vezes, é controle. E somos “os chatos da vez”. Sim, somos e com muito orgulho, aliás.

Ela lembrou algo incômodo: se até o básico, como a entrega de informes, está ficando pelo caminho em parte do mercado, imagina o resto da esteira.

E tem um ingrediente novo nessa história: a CVM está avançando no uso de inteligência artificial para fiscalizar. Ou seja, esteiras que hoje sobrevivem no “dá um jeito depois” vão começar a ser levadas mais a sério – não porque alguém teve um surto de rigor moral, mas porque a fiscalização ficou mais esperta que o atalho.

Governança não deveria existir porque tem alguém checando. Mas, sejamos honestos: no fim, é exatamente essa segunda olhada que evita virar a notícia que todo mundo está comentando no grupo do WhatsApp do mercado.


Uma pergunta que sempre respondo

Alguém perguntou em um treinamento: e o comitê de crédito, é obrigatório nessa esteira?

Boa pergunta, e a resposta não é curta, mas começa com: o comitê é uma instância, e ele não se resume ao crédito. Comitê de Risco e Monitoramento devem ser aplicados em todas as estruturas que concedem crédito.

Mas essa resposta merece um texto próprio, não um parágrafo de fechamento. Fica combinado.


“Deu certo uma vez” é a frase mais perigosa da esteira

É totalmente verdadeira a afirmação: “a estrutura só dá problema quando insistem em pular ou ignorar etapa.”

E é aí que mora o perigo que ninguém quer nomear: quando uma exceção “dá certo” – quando alguém corta caminho e a operação termina bem mesmo assim -, os olhos se fecham. E a chance de um problema real aumenta a cada nova operação que repete o atalho como se fosse regra.

Ninguém quebra a esteira pulando etapa uma vez. Quebra quando aquela vez vira hábito.


Sem cerimônia: o que isso muda na sua mesa

Se você é diretor ou gerente: pare de tratar segunda análise como custo. Trate como o seguro que sua carteira está pagando para não virar estatística.

Se você é analista, de qualquer uma dessas áreas: a etapa que você faz não é “mais uma checagem”. É a pergunta que ninguém mais na esteira vai fazer. Leve isso a sério, e não porque alguém está fiscalizando, mas porque é literalmente a sua função existir ali.

A esteira boa não é a mais rápida. É a que não deixa passar o erro que custaria caro demais para ser descoberto depois.

E não, isso não é eu “avisando” nada. É só matemática de crédito estruturado, a mesma que separa quem sobrevive a um ciclo ruim de quem vira o próximo case de estudo do mercado.


Rodrigo Muller
Crédito, Risco e Governança em operações estruturadas
(FIDCs, Securitizadoras e SCDs)

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