Pulverizada em CNPJs. Concentrada em risco.

“A carteira é pulverizada” é uma frase que costuma encerrar reunião de Comitê rápido demais. Ela tranquiliza porque parece autoexplicativa: muitos sacados, tíquetes menores, nenhum CNPJ isolado acima do limite de concentração previsto em política. Curva ABC arrumadinha, ninguém questiona, segue o jogo.

O problema é que “muitos CNPJs” e “muitos riscos” são coisas completamente diferentes, e a Curva ABC, sozinha, não consegue mostrar isso. Ela organiza aquilo que está no borderô – nome, documento, valor, prazo, participação na carteira -, mas não mostra necessariamente quem assina por quem, quem opera no mesmo endereço, quem está ligado societariamente a quem, ou quais empresas aparentemente independentes pertencem, na prática, ao mesmo núcleo de relacionamento. Isso não aparece em nenhuma coluna tradicional da planilha, e é justamente aí que a concentração costuma se esconder.


A diferença entre contar e entender

Uma carteira com cem sacados, em que nenhum representa mais de 2% do total, pode cumprir integralmente os limites individuais previstos em política. No papel, parece uma fotografia impecável de diversificação. Na prática, pode representar quatro núcleos econômicos fragmentados em dezenas de empresas formalmente distintas, cada uma com seu CNPJ, cada uma existindo e operando normalmente, mas conectadas pelos mesmos sócios, familiares, procuradores ou relações econômicas.

Isso não significa fraude por definição. Às vezes é apenas uma estrutura societária complexa, um grupo que cresceu com diferentes empresas, ou uma organização construída por razões tributárias, operacionais ou comerciais que nada têm a ver com crédito. Mas para quem financia a operação existe uma pergunta ainda mais importante: esses riscos são realmente independentes?
Porque, se um único evento puder afetar várias dessas empresas ao mesmo tempo, a pulverização cadastral deixa de significar diversificação econômica, e o risco não faz distinção entre concentração intencional e concentração acidental. Se aquele núcleo tossir, várias linhas do Excel tossem juntas.

Quando existe fraude, o efeito é ainda mais grave. A chamada “Operação Sem Lastro”, investigada recentemente, ajuda a mostrar isso: segundo as investigações divulgadas, mais de duzentas empresas foram apontadas como sacadas em duplicatas que somavam aproximadamente R$ 32 milhões. No papel, centenas de sacados. Na prática, a investigação apontou uma estrutura em que recursos do próprio cedente teriam sido utilizados para liquidar títulos. O sistema conseguiu registrar centenas de linhas diferentes, mas isso não significava centenas de riscos independentes.


A Curva ABC é ponto de partida, não de chegada

Nenhuma estrutura de crédito deveria abrir mão da Curva ABC. Ela continua sendo uma das ferramentas mais úteis para entender a exposição inicial da carteira. O erro é tratá-la como resposta final. Quando o Comitê aprova um teto de concentração por sacado, está medindo uma dimensão objetiva do risco. Quando pergunta quantos eventos econômicos independentes aquela carteira realmente suporta, começa a medir outra coisa: a concentração efetiva. É essa segunda pergunta que muitas vezes não aparece na ata.

Fazer essa checagem não exige tecnologia de outro mundo, exige processo. Cruzar sócios entre empresas da mesma carteira, comparar endereços, identificar procuradores recorrentes, entender relações familiares, observar vínculos econômicos e questionar situações em que o porte aparente de uma empresa não combina com o volume que ela passou a movimentar. Nenhum desses sinais necessariamente pisca sozinho na tela. Eles aparecem quando alguém decide conectar os pontos.


Diversificação não é forma. É substância.

O ponto não é desconfiar de toda carteira pulverizada – a maioria provavelmente é exatamente o que parece. O ponto é outro: “pulverizada” deveria ser uma conclusão, não uma premissa, e conclusão precisa ser sustentada pela análise, não apenas pela quantidade de linhas no Excel. Cem sacados podem representar cem riscos independentes. Ou podem representar quatro. A diferença entre as duas leituras não está apenas na Curva ABC, está em quem se preocupou em descobrir o que havia por trás dos CNPJs.

Na próxima vez que alguém disser “a carteira é pulverizada” em uma reunião de Comitê, talvez a pergunta mais importante não seja “quantos sacados temos?”, mas: estamos pulverizados em CNPJs ou em eventos de risco realmente independentes?


Rodrigo Müller
Crédito, Risco e Governança para FIDCs e securitizadoras.