Quem opera fomento há algum tempo desenvolveu uma intuição afiada para preço. Olha um recebível, avalia o sacado, mede o prazo e chega rápido a um deságio que faz sentido. Essa competência é real e foi ela que sustentou o crescimento do setor. O ponto que merece atenção agora é outro. A mesma régua que precifica bem uma antecipação não necessariamente precifica bem uma operação de crédito. E continuar usando a régua antiga em uma operação de natureza diferente é uma das formas de acumular risco sem nem mesmo perceber.
Nos últimos textos discutimos como o risco muda quando a operação deixa de ser securitização e passa a ser crédito. O dinheiro deixa de estar preso a um ativo e entra no caixa da empresa. Falamos também de garantia executável, de formalização e de acompanhamento da carteira. Precificação é o ponto onde tudo isso se encontra, porque o preço de uma operação deveria refletir, em números, exatamente o risco que ela tem em sua estrutura.
Na antecipação, o preço responde a poucas variáveis bem definidas. O prazo até o vencimento, a qualidade do sacado que vai pagar e a probabilidade de o título performar. O risco está no papel, tem ciclo curto e desfecho previsível. Se o sacado é bom e o título é válido, a operação tende a se liquidar sozinha. Por isso a conta pode ser rápida. O deságio cobre o custo do dinheiro no período, uma perda esperada baixa e a margem. Funciona porque o objeto que está sendo precificado é estável e de curta duração.
No crédito, o objeto muda. Não se está precificando um título de ciclo curto, e sim uma empresa ao longo de meses. A qualidade desse tomador não é um dado fixo da concessão, é uma variável que se move durante todo o contrato, como já discutimos ao tratar do acompanhamento. Some a isso o perfil típico do setor, empresas com passivo maior que o ativo e pouca folga para absorver imprevistos. O resultado é que a perda, quando acontece, tende a ser maior e mais demorada de recuperar.
Isso significa que o preço de uma operação de crédito precisa cobrir mais coisas do que o deságio de uma antecipação. Precisa cobrir o custo de captação, a perda esperada da carteira, o custo e o tempo de recuperar uma operação que virou inadimplência, o custo de acompanhar a operação enquanto ela está viva e, só então, a margem. Quando qualquer um desses componentes fica de fora, o preço parece bom e não é.
Taxa alta não é o mesmo que risco precificado
Aqui está o erro mais comum. No fomento, taxas acima de 200% do CDI são o ponto de partida e não raro passam de 300%. Com a Selic em 14% ao ano, são custos efetivos elevados para o tomador, e é fácil olhar para esse número e concluir que o risco está mais do que coberto. Mas taxa alta e risco precificado não são a mesma coisa.
O que define se o preço é suficiente não é a taxa nominal, é o que sobra depois de descontar tudo o que a operação vai consumir. Uma taxa de 300% do CDI em uma carteira com perda esperada alta, garantia de baixa liquidez e recuperação que se arrasta por anos pode entregar margem menor do que uma taxa mais baixa em uma operação bem estruturada. A garantia entra exatamente nesse ponto. Quando ela é executável e líquida, reduz a perda em caso de inadimplência e permite um preço mais competitivo. Quando é garantia de papel, o preço precisa ser maior para compensar, e muitas vezes nem o preço maior compensa.
Precificar é decisão de carteira, não só de operação
Existe ainda uma camada que a régua da antecipação não costuma capturar. O preço de uma operação isolada não é a mesma coisa que o preço do risco que ela adiciona à carteira. Uma operação que reforça uma concentração já existente carrega um risco que a taxa individual não enxerga. Se dez cedentes respondem por boa parte da exposição, o risco de que um evento atinja vários ao mesmo tempo não está diluído, e isso deveria ter preço. Precificar bem é, também, cobrar mais caro pelo risco que não se dilui e reconhecer que nem toda operação com boa taxa melhora a carteira.
Esse é o mesmo raciocínio da disciplina em ciclos de crescimento. Quando o mercado está aquecido e a concorrência pressiona margem, a tentação é reduzir preço para não perder volume. Reduzir preço sem que o risco tenha caído é abrir mão de prêmio justamente no momento em que a carteira está incorporando operações que ainda não passaram pelo teste do tempo. O preço é uma das primeiras coisas a ser flexibilizada e uma das últimas a ser percebida.
A pergunta que o preço precisa responder
A régua da antecipação não está errada. Ela está calibrada para outro objeto, serve para medir o risco de um título de ciclo curto e falha quando é usada para medir o risco de uma empresa ao longo do tempo. Levar a régua antiga para o crédito é precificar de maneira errada.
Recalibrar exige decompor o preço e checar se cada componente está de fato coberto. Qual é a perda esperada desse perfil de tomador? Quanto custa e quanto demora recuperar se der errado? O que a garantia realmente reduz dessa perda? Quanto de risco de concentração essa operação adiciona? Depois dessas respostas, a taxa deixa de ser um número herdado do hábito e passa a ser consequência do risco. No fim, a pergunta é se, depois de tudo o que a operação pode consumir, ainda sobra prêmio pelo risco assumido. Quem responde isso antes de fechar está precificando crédito. Quem confia que a taxa alta resolve por si só ainda está usando a régua da antecipação.

