O Copom decidiu manter a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de redução dos juros. A decisão era esperada e evidencia os desequilíbrios que continuam dificultando uma recuperação sustentada da economia brasileira.
O desemprego recuou para 5,2% no terceiro trimestre, segundo o IBGE, enquanto a massa salarial alcançou R$ 387,5 bilhões. Indicadores positivos, mas que contrastam com a situação financeira das famílias.
Segundo o Banco Central, o endividamento atingiu 50,1% da renda anual e o comprometimento mensal com dívidas chegou a 29%. Pela CNC, 81,7% das famílias estavam endividadas em setembro, sendo que 29,6% tinham contas em atraso.
Temos mais pessoas trabalhando, mas uma parcela crescente da renda já está comprometida. O emprego melhora, mas a capacidade de consumo continua pressionada.
No mercado de crédito, o estoque ultrapassa R$ 7,4 trilhões, com sinais de desaceleração. A inadimplência no crédito livre chegou a 6,6%, pressionando spreads, provisões e critérios de concessão. Para empresas e consumidores, isso significa crédito mais seletivo, capital mais caro e menor espaço para investimentos e consumo.
A situação fiscal agrava esse cenário. A dívida bruta alcançou 82,9% do PIB e os juros da dívida pública somaram aproximadamente R$ 1,2 trilhão em 12 meses. O desequilíbrio das contas públicas eleva a percepção de risco e dificulta a redução consistente dos juros.
O ambiente político acrescenta outra camada de incerteza. Encerradas as eleições, as tensões envolvendo a composição do Executivo, a equipe econômica e a relação com o Congresso colocam em dúvida a capacidade de construir uma agenda fiscal crível.
O país precisa de previsibilidade, responsabilidade orçamentária e condições para transformar crescimento econômico em renda disponível, sem depender continuamente da expansão do endividamento.
Para as instituições financeiras, o momento exige maior rigor na avaliação de risco, inteligência de dados e eficiência na gestão das carteiras. Tecnologia e inovação ajudam, mas não substituem estabilidade macroeconômica.
A decisão do Copom é apenas parte do problema. Enquanto persistirem a fragilidade fiscal, o elevado comprometimento da renda e as incertezas políticas, o custo do crédito continuará sendo um obstáculo ao crescimento.
Mais importante do que discutir quando os juros voltarão a cair é entender o que estamos fazendo para que possam permanecer baixos.

